VARIAÇÕES

VARIAÇÕES

sexta-feira, 26 de maio de 2017

A ALMA

“A ALMA DA GENTE, COMO SABES, É UMA CASA COM JANELAS PARA TODOS OS LADOS, MUITA LUZ E AR PURO...”


Machado de Assis

sexta-feira, 12 de maio de 2017

VIVER COMO AS FLORES

"Era uma vez um jovem que caminhava ao lado do seu mestre. Ele perguntou:  - Mestre, como faço para não me aborrecer? Algumas pessoas falam demais, outras são ignorantes. Algumas são indiferentes, outras mentirosas...  sofro com as que caluniam...  - Pois viva como as flores! - advertiu o mestre. - Como é viver como as flores? - perguntou o discípulo.  - Repare nestas flores - continuou o mestre - apontando lírios que cresciam no jardim. Elas nascem no esterco, entretanto são puras e perfumadas. Extraem do adubo malcheiroso tudo que lhes é útil e saudável, mas não permitem que o azedume da terra manche o frescor de suas pétalas... É justo angustiar-se com as próprias culpas, mas não é sábio permitir que os vícios dos outros nos importunem. Os defeitos deles são deles e não seus. Se não são seus, não há razão para aborrecimento. Exercite, pois, a virtude de rejeitar todo mal que vem de fora... Não se deixe contaminar por tudo aquilo que o rodeia...  Assim, você estará vivendo como as flores!"

Autoria desconhecida

terça-feira, 4 de abril de 2017

LUZ

“Relacionamentos verdadeiros começam com silêncio.
Portanto, você pode começar a criar um relacionamento melhor consigo, então, com o Supremo, e então com os outros. A razão pela qual os relacionamentos com os outros vêm por último é porque os outros nunca veem em nós o que Deus vê.
Frequentemente nos vemos através dos olhos dos outros. Então, se alguém vê somente 20% do que somos, também só vemos esse tanto.
Deus nos vê como somos, Ele vê nosso potencial completo.
Se você aprender a olhar-se da forma como Deus o vê, você começará a ver seu eu verdadeiro.”


Brahma Kumaris

quinta-feira, 30 de março de 2017

O VERDADEIRO ENCONTRO

Encontrar o nosso próprio ser é a coisa mais simples e valiosa da nossa vida.

segunda-feira, 20 de março de 2017

UM DIA...

“Um dia a gente aprende a construir todas as nossas estradas no hoje;
Porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos,
E o futuro tem o costume de cair em meio ao vão.”

Shakespeare

Ilustração: Jonas De Ro


segunda-feira, 13 de março de 2017

DO EU AO SER

"O lugar mais amado por Deus é o templo interior de silêncio e paz de Seus devotos. 
Sempre que você entrar aqui, neste lindo templo, deixe a inquietude e as preocupações para trás. Se não se despojar delas, Deus não poderá vir a você.

A unidade das várias religiões só poderá se concretizar quando seus praticantes tornarem-se realmente conscientes de Deus dentro de si mesmos. Teremos, então, uma verdadeira fraternidade de homens sob a Paternidade de Deus.

Não é pela concentração em dogmas que poderemos alcançar Deus, e sim pelo verdadeiro conhecimento da alma... Para mim, não existem judeus, cristãos ou hindus; todos são meus irmãos. Eu presto adoração em qualquer templo, pois todos foram construídos em honra de meu Pai.

Precisamos das "colméias" das igrejas, mas necessitamos também encher as igrejas com o "mel" da nossa Auto-realização... Frequentar a igreja é bom, mas a meditação diária é ainda melhor.
O que toda religião deveria dar a seus seguidores é a percepção da Verdade, a experiência de Deus - e não meros dogmas.
Quem não dedica tempo à sua religião não pode esperar conhecer, de uma hora para outra, tudo sobre Deus e o além. Geralmente, as pessoas não se esforçam ou, se o fazem o esforço não é bastante profundo e sincero...
Lembre-se: se você não encontra Deus é porque não está se empenhando bastante na meditação.

A verdadeira prática da religião consiste em sentar-se quieto, em meditação, e conversar com Deus... A maioria dos frequentadores de igrejas não consegue ficar sentada quieta por uma hora, a não ser que alguma atividade esteja ocorrendo o tempo todo, para distrair suas mentes.

Os que pensam em Deus brilham pouco, mas não são capazes de dar luz ao mundo. Pessoas religiosas comuns são como estrelas, emitindo apenas uma débil luz.
Quem não está disposto a renunciar a tudo o que possui para encontrar Deus não O conhecerá. Quem pretende conhecer Deus deve ser capaz de abandonar tudo o mais por Ele.
Não há forma de serviço maior que falar de Deus. Se você convencer alguém de que o caminho do erro leva ao vale da morte e que o caminho da meditação, à vida eterna, terá dado algo mais valioso do que um milhão de dólares. O dinheiro é perecível, mas a realização divina nos acompanhará além dos portais do túmulo.


Para quem se comporta mal, o Ser é um inimigo. Ajude o Ser e Ele o salvará. Não há outro salvador, além do seu Ser.
Ser iogue é meditar. Assim que acorda de manhã, o iogue não pensa primeiro em alimentar o corpo; ele nutre a alma com a ambrósia da comunhão com Deus. Saciado com a inspiração que sua mente encontrou, ao mergulhar profundamente na meditação, está apto para cumprir com êxito todos os deveres do dia.

Ao analisar o que você é, tenha o firme desejo de eliminar suas fraquezas transformar-se no que deveria ser. Não se permita desanimar com imperfeições que são comumente reveladas através de uma auto-análise sincera.
Que o homem eleve o eu pelo eu; que o eu não se degrade. Para aquele cujo eu foi conquistado pelo Ser, o Ser é o amigo do eu; mas, em verdade, o Ser comporta-se de maneira hostil, como um inimigo, para com o eu que não foi subjugado.


Você agora está limitado; quando, porém, pela meditação diária e profunda, puder transferir sua consciência do finito para o Infinito, será livre. Você não se destina a ser prisioneiro do corpo. Você é filho de Deus e deve viver à altura dessa herança divina.
As pessoas mundanas buscam as dádivas de Deus, mas o sábio busca o próprio Doador.

Nosso empenho deve ser não apenas adquirir segurança financeira e boa saúde, mas procurar o significado da vida. A vida: de que se trata?... Quando pensamos com suficiente profundidade, encontramos uma resposta em nosso interior. Esta é uma forma de prece atendida.
Não deixe que ninguém o chame de pecador.
Que importância tem o que você foi ontem?
Você é filho de Deus, agora e sempre."

Yogananda em O Filho de Deus

sábado, 4 de março de 2017

COISAS DE GUIMARÃES ROSA

“(...) no meu silêncio, estou sempre de olho no que os vaqueiros fazem. Chamam-me de aprendiz e é isso o que sou na verdade. Ainda não sei muito da vida vaquejada, mas, nas caçadas, vou silencioso e atento para não espantar os bichos. Ao redor das fogueiras, nas noites escuras, ouço atento as histórias sem fim.” 

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

HISTORINHA BREVE DE UM CACHORRO

Eu havia ido ali naquele local para tirar umas fotos. De repente, quando olhei para trás, vi um cachorro. Parecia um cachorro sem dono. Como sempre faço, dou uma olhadinha para o bichinho e estalo os meus dedos, geralmente o bichinho sacode a cauda e vai embora. Dessa vez foi diferente, o cachorro olhou pra mim e veio em minha direção como se quisesse dizer:- Você precisa de um cachorro. Eu estou disponível, me leva com você.
Eu olhei pra ele e disse:- Bichinho bonito e carente, nem me venha com esse olhar! Já conheço essa carinha, não preciso de um cachorro, apesar de você ser muito bonitinho. Mas não dá, e além do mais eu estou a muitos quilômetros de distância da minha casa. Melhor você procurar outra pessoa para te adotar.
Passados alguns instantes, outra pessoa passou por ali e assobiou para o cachorro, então ele me deu uma olhada como se quisesse dizer: Está bem, estou saindo fora. Sabe como é, preciso me garantir, vai que alguém se interessa por mim.

Lita Duarte

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

A ANDARILHA

Bina era o nome da mulher que andava pelas ruas da cidade. Diziam que ela era louca.
As crianças sentiam por ela um misto de encantamento e medo. Ela era daquelas pessoas que olhava nos os olhos dos outros e dizia:- O que é? Você perdeu alguma coisa?
Ninguém nunca foi agredido por ela, mas por cautela mantinham uma certa distância daquela pessoa franzina e atirada.

Ela morava em uma vila distante, em uma casa de madeira, mas muito limpa. Ao sair andando pelas ruas da velha cidade, sempre tinha um cachorro que lhe acompanhava.
Muitas vezes ela pedia comida na casa dos outros. As pessoas davam, porque no fundo sentiam dó daquela pessoa tão solta, mas ao mesmo tempo tão carente.

Certa vez, estava chovendo muito, parecia que o mundo ia desabar, Bina, não conseguiu voltar para sua casa e acabou ficando pela cidade tentando encontrar um abrigo.
Choveu a noite toda. No dia seguinte quando amanheceu e a cidade voltou à rotina, surgiu um comentário de que a Bina havia aprontado das suas.
Aconteceu o seguinte: O coveiro do cemitério da cidade quando entrou no alojamento onde ficava o caixão dos pobres, tomou o maior susto. Ele viu alguém sair de dentro dele e perguntar assim:- E a chuva, já passou? Esse alguém era a Bina. Sabem como é, cidade pequena de antigamente todos ficavam sabendo dos acontecimentos.
A andarilha Bina era tão conhecida que até hoje os antigos moradores da cidade contam essa história.


Imagem: Isaac Levitan

Lita Duarte

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

O TAMANHO DAS PESSOAS

"Os Tamanhos variam conforme o grau de envolvimento...
Uma pessoa é enorme para ti, quando fala do que leu e viveu,
quando te trata com carinho e respeito,
quando te olha nos olhos e sorri .

É pequena para ti quando só pensa em si mesma,
quando se comporta de uma maneira pouco gentil,
quando fracassa justamente no momento em que
teria que demonstrar o que há de mais importante entre duas pessoas:
a amizade, o carinho, o respeito, o zelo e até mesmo o amor.

Uma pessoa é gigante para ti quando se interessa pela tua vida,
quando procura alternativas para o seu crescimento,
quando sonha junto contigo.

É pequena quando se desvia do assunto.

Uma pessoa é grande quando perdoa, quando compreende, quando se coloca no lugar do outro, quando age não de acordo com o que esperam dela,
mas de acordo com o que espera de si mesma.
Uma pessoa é pequena quando se deixa reger por comportamentos da moda.

Uma mesma pessoa pode aparentar grandeza ou pequenez dentro de um relacionamento,
pode crescer ou decrescer num espaço de poucas semanas.

Uma decepção pode diminuir o tamanho de um amor que parecia ser grande.

Uma ausência pode aumentar o tamanho de um amor que parecia ser ínfimo.


É difícil conviver com esta elasticidade:
as pessoas se agigantam e se encolhem aos nossos olhos.
O nosso julgamento é feito não através de centímetros e metros,
mas de ações e reações, de expectativas e frustrações.

Uma pessoa é única ao estender a mão, e ao recolhê-la inesperadamente torna-se mais uma.
O egoísmo unifica os insignificantes.

Não é a altura, nem o peso, nem os músculos que tornam uma pessoa grande...

É a sua sensibilidade, sem tamanho..."

William Shakespeare

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

UM DIA DE VERÃO

Naquele dia quente de verão, chegamos ao vilarejo de Pitangueiras.
Fomos direto para o sítio de dona Inácia. O caminho era muito bonito, verde por todos os lados.
Eu, minha mãe e minha irmã, na época eu estava com dez anos de idade.
Fomos passar dois dias na casa de dona Inácia, uma amiga da minha mãe e avó da minha amiga Riroco.
Era o mês de janeiro e nós, às crianças estávamos de férias escolares.
A Riroco estava passando férias na casa de sua avó, e já havia chegado lá há uns quinze dias.

Assim que chegamos na casa de dona Inácia, a Riroco já me puxou pelo braço para que fôssemos brincar. Eu não podia perder tempo, pois ficaria ali somente dois dias. Assim que troquei de roupa, saí correndo com a Riroco por aqueles campos floridos e cheios de árvores frutíferas. Aquele aroma das plantas me envolvia, e eu sentia um tremendo bem estar.

A Riroco propôs que fôssemos subir no pé de tamarindo para pegarmos os frutos, e também ver os camaleões que ficavam lá no alto da árvore. Topei na hora!
Fomos, subimos no tamarindeiro e ficamos empanturradas de tanto comer tamarindo. Havia alguns camaleões bem perto de nós, eles ficavam olhando e virando os olhos a cada movimento que fazíamos, e alguns ficavam tão camuflados que se misturavam com as cores da árvore.
De repente, começou a chover aquela chuva de verão. Pensamos que à chuva fosse passar logo, mas não passou. Ficamos lá em cima da árvore, queríamos esperar o sol voltar para que secasse a nossa roupa, e continuássemos ali. Pois estava sendo maravilhoso tomar banho de chuva em cima daquela árvore.
Mas de repente começamos a ouvir os trovões e, com trovões surgem os raios. Então ficamos com medo e descemos rapidinho da árvore, e fomos correndo para a casa de dona Inácia.
Chegando lá, tomamos uma tremenda bronca da minha mãe e da dona Inácia.

Tomamos banho e trocamos de roupa, nesse tempo à chuva passou e o sol voltou a brilhar.
Eu e Riroco estávamos sentadas tomando um lanche. Ela olhou para mim e disse: - Vamos! Você não está ouvindo um barulho? - É o carro de boi que está passando lá na estrada.
Então saímos correndo e fomos ao encontro do carro de boi para pegarmos uma carona nele...
Só posso dizer que foi uma aventura maravilhosa.
Só voltamos para casa à noitinha, caminhando pelo campo e ouvindo os barulhinhos dos grilos e totalmente encantadas com o piscar dos vaga-lumes.
Foi tudo muito bom naquele dia de verão. Foi um presente e tanto.

Lita Duarte

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

O LUTADOR

Há muito tempo havia numa terra muito distante, um homem que amava muito o seu povo, amava muito a natureza e respeitava toda forma de vida.
Esse homem não se dobrava para as imposições exteriores. Ele era muito firme em seus preceitos.
Não era dono da verdade, mas era fiel na busca e manutenção do bem.
Amava a cultura de seu povo e lutava para preservá-la.
Ele era firme com as palavras, gestos e atitudes. Porém, quem o conhecia profundamente sabia que ele era dócil e amável. Mas para não se deixar corromper, precisava manter firmeza. Pois ele sabia que as riquezas materiais derrubavam as pessoas de sua dignidade.
Ele sabia que as pessoas costumavam se vender por trocados.
Ele era realmente um lutador.
Ele não tinha dificuldade para entender que para aqueles que optam em ser diferente, existem muitas barreiras. Mas ele não se importava. Ele falava! E quando falava, realmente dizia e abalava as estruturas.
Era muito amado, mas também odiado.
Viveu assim, sempre firme em suas convicções, deixou lições preciosas de amor, respeito e de verdadeiros valores humanos.
Ele sempre dizia que: Um homem não pode se conformar com as coisas erradas deste mundo, um homem tem que lutar para transformar a realidade.

Esse lutador pode ser apenas uma ficção ou pode ter existido de verdade.
Mas penso que todos aqueles que não tomam a forma deste mundo, que não se corrompem com os sistemas opressores que estão aí, no fundo são um pouco desse lutador.

Lita Duarte

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

AMIZADE VERDADEIRA




Araci, uma senhora viúva que morava na vila das Hortênsias, tinha um gato como sua única companhia. Quem passava na rua costumava ver dona Araci cuidando do jardim e sempre com aquele gato por perto, até parecia que o danado a ajudava nas tarefas com o jardim. Às vezes dona Araci ia até o portão para conversar um pouco com algumas vizinhas, o gato ficava o tempo todo do lado dela.  Algumas pessoas costumavam dizer assim: Esse gato parece gente. Vive enrabichado com sua dona, ele só falta falar!
Quando dona Araci se ausentava por algumas horas, o pobre gato ficava miando e andava pela rua a procura de sua dona. Quando ela chegava, ele se enroscava em suas pernas e pulava em seu colo.

Certo dia, dona Araci não amanheceu bem. Uma vizinha que costumava passar em sua casa logo de manhã para saber se ela estava bem, estranhou o fato da torneira do jardim estar aberta e algumas plantas espalhadas pelo chão. Dona Araci era muito organizada, quando cuidava do jardim deixava tudo muito bem limpo e arrumado.
A vizinha foi entrando na casa e viu dona Araci caída no chão. Ela mal respirava, então a vizinha chamou outras pessoas para que a ajudassem a cuidar de dona Araci. Ela foi levada para o hospital, mas não resistiu, acabou morrendo. O médico disse que ela já estava muito velha e com problemas  sérios no coração. 

O pobre gato ficou muito mal, ele miava muito quando dona Araci foi internada, mas depois de uns dias ele sumiu. Os vizinhos tiveram que entrar na casa de dona Araci para ver seus documentos e arrumar a casa para que se aparecesse algum parente, encontrasse tudo na mais perfeita ordem. Estranharam não encontrar o gato ali.

Certo dia, uma das vizinhas de dona Araci foi ao cemitério levar umas flores para enfeitar o túmulo dela. Ela ficou surpresa ao ver quem estava lá. E quase não acreditou no que viu. Como podia ser aquilo! O gato de dona Araci estava ali.  Ele estava magro, muito magro. O coveiro falou para a mulher: Esse gato está aí desde o dia que sua dona foi enterrada. Ele deve sentir muito a falta dela. Desse jeito ele vai acabar morrendo.
E foi o que aconteceu. Depois de alguns dias, outra vizinha amiga de dona Araci foi ao cemitério levar uma flores e encontrou o gato morto e ao lado da sepultura de sua dona.

Texto baseado em fatos reais.

Lita Duarte

A VELHA CASA

O som do silêncio à noite invadia os cômodos da casa. Sentada na minha cama, rodeada de livros, comecei a  pensar que, não faz muito tempo essa casa vivia cheia de gente. Hoje em dia, só os ruídos das madeiras que estão cheias de cupins, além do barulho dos passarinhos que fazem ninhos no teto. – Ainda bem que os pequenos voadores habitam este lugar, já os cupins...  preciso tomar coragem para dar um fim neles. Talvez eu chame uma dessas firmas com seus exterminadores de insetos. -  Mas tenho medo que ao ser aplicado um veneno para matar os cupins, também acabe por matar os passarinhos.- Ah, eu não desejo que meus companheiros desapareçam, eles cantam para mim .-  Mas como eu ia dizendo, essa casa era cheia de gente. Crianças corriam por todos os lados. Eu posso ouvir aquelas vozes infantis ressoando na minha memória. – Onde elas estão? - Seguiram o curso da vida. Foram seguir seus destinos. E o tempo voou... e eu me recuso a sair dessa casa, também ela está cheia de sons do passado, que só eu posso ouvir. De vez em quando, aparece alguém me fazendo proposta para que eu venda  minha casa. Eu sei que ela vale uns bons trocados, claro, querem comprar essa casa para derrubá-la e  construir um prédio bem alto com vários apartamentos. Então eu digo um valor exorbitante, os interessados olham para mim e dizem: Dona, essa casa não vale tanto assim! Então eu digo: Não vale para vocês que não viveram aqui! O valor dessa casa é muito grande e tem mais: nunca vão conseguir derrubá-la. Ela será doada para uma pessoa que vai ter que conservá-la para sempre. Os compradores interessados respondem: A senhora está maluca, ninguém vai querer conservar este imóvel. Daqui a alguns anos essa casa não existirá mais. Então fico muito brava e digo para essas pessoas irem embora. - No fundo, acho que ninguém vai querer conservar coisa alguma, a não ser que este imóvel seja tombado, mas tem tantos imóveis tombados por aí que estão caindo aos pedaços. Bem, enquanto eu viver ninguém derruba minha casa... a não ser os cupins.

Lita Duarte