VARIAÇÕES

VARIAÇÕES

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

HISTORINHA BREVE DE UM CACHORRO

Eu havia ido ali naquele local para tirar umas fotos. De repente, quando olhei para trás, vi um cachorro. Parecia um cachorro sem dono. Como sempre faço, dou uma olhadinha para o bichinho e estalo os meus dedos, geralmente o bichinho sacode a cauda e vai embora. Dessa vez foi diferente, o cachorro olhou pra mim e veio em minha direção como se quisesse dizer:- Você precisa de um cachorro. Eu estou disponível, me leva com você.
Eu olhei pra ele e disse:- Bichinho bonito e carente, nem me venha com esse olhar! Já conheço essa carinha, não preciso de um cachorro, apesar de você ser muito bonitinho. Mas não dá, e além do mais eu estou a muitos quilômetros de distância da minha casa. Melhor você procurar outra pessoa para te adotar.
Passados alguns instantes, outra pessoa passou por ali e assobiou para o cachorro, então ele me deu uma olhada como se quisesse dizer: Está bem, estou saindo fora. Sabe como é, preciso me garantir, vai que alguém se interessa por mim.

Lita Duarte

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

A ANDARILHA

Bina era o nome da mulher que andava pelas ruas da cidade. Diziam que ela era louca.
As crianças sentiam por ela um misto de encantamento e medo. Ela era daquelas pessoas que olhava nos os olhos dos outros e dizia:- O que é? Você perdeu alguma coisa?
Ninguém nunca foi agredido por ela, mas por cautela mantinham uma certa distância daquela pessoa franzina e atirada.

Ela morava em uma vila distante, em uma casa de madeira, mas muito limpa. Ao sair andando pelas ruas da velha cidade, sempre tinha um cachorro que lhe acompanhava.
Muitas vezes ela pedia comida na casa dos outros. As pessoas davam, porque no fundo sentiam dó daquela pessoa tão solta, mas ao mesmo tempo tão carente.

Certa vez, estava chovendo muito, parecia que o mundo ia desabar, Bina, não conseguiu voltar para sua casa e acabou ficando pela cidade tentando encontrar um abrigo.
Choveu a noite toda. No dia seguinte quando amanheceu e a cidade voltou à rotina, surgiu um comentário de que a Bina havia aprontado das suas.
Aconteceu o seguinte: O coveiro do cemitério da cidade quando entrou no alojamento onde ficava o caixão dos pobres, tomou o maior susto. Ele viu alguém sair de dentro dele e perguntar assim:- E a chuva, já passou? Esse alguém era a Bina. Sabem como é, cidade pequena de antigamente todos ficavam sabendo dos acontecimentos.
A andarilha Bina era tão conhecida que até hoje os antigos moradores da cidade contam essa história.


Imagem: Isaac Levitan

Lita Duarte

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

O TAMANHO DAS PESSOAS

"Os Tamanhos variam conforme o grau de envolvimento...
Uma pessoa é enorme para ti, quando fala do que leu e viveu,
quando te trata com carinho e respeito,
quando te olha nos olhos e sorri .

É pequena para ti quando só pensa em si mesma,
quando se comporta de uma maneira pouco gentil,
quando fracassa justamente no momento em que
teria que demonstrar o que há de mais importante entre duas pessoas:
a amizade, o carinho, o respeito, o zelo e até mesmo o amor.

Uma pessoa é gigante para ti quando se interessa pela tua vida,
quando procura alternativas para o seu crescimento,
quando sonha junto contigo.

É pequena quando se desvia do assunto.

Uma pessoa é grande quando perdoa, quando compreende, quando se coloca no lugar do outro, quando age não de acordo com o que esperam dela,
mas de acordo com o que espera de si mesma.
Uma pessoa é pequena quando se deixa reger por comportamentos da moda.

Uma mesma pessoa pode aparentar grandeza ou pequenez dentro de um relacionamento,
pode crescer ou decrescer num espaço de poucas semanas.

Uma decepção pode diminuir o tamanho de um amor que parecia ser grande.

Uma ausência pode aumentar o tamanho de um amor que parecia ser ínfimo.


É difícil conviver com esta elasticidade:
as pessoas se agigantam e se encolhem aos nossos olhos.
O nosso julgamento é feito não através de centímetros e metros,
mas de ações e reações, de expectativas e frustrações.

Uma pessoa é única ao estender a mão, e ao recolhê-la inesperadamente torna-se mais uma.
O egoísmo unifica os insignificantes.

Não é a altura, nem o peso, nem os músculos que tornam uma pessoa grande...

É a sua sensibilidade, sem tamanho..."

William Shakespeare

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

UM DIA DE VERÃO

Naquele dia quente de verão, chegamos ao vilarejo de Pitangueiras.
Fomos direto para o sítio de dona Inácia. O caminho era muito bonito, verde por todos os lados.
Eu, minha mãe e minha irmã, na época eu estava com dez anos de idade.
Fomos passar dois dias na casa de dona Inácia, uma amiga da minha mãe e avó da minha amiga Riroco.
Era o mês de janeiro e nós, às crianças estávamos de férias escolares.
A Riroco estava passando férias na casa de sua avó, e já havia chegado lá há uns quinze dias.

Assim que chegamos na casa de dona Inácia, a Riroco já me puxou pelo braço para que fôssemos brincar. Eu não podia perder tempo, pois ficaria ali somente dois dias. Assim que troquei de roupa, saí correndo com a Riroco por aqueles campos floridos e cheios de árvores frutíferas. Aquele aroma das plantas me envolvia, e eu sentia um tremendo bem estar.

A Riroco propôs que fôssemos subir no pé de tamarindo para pegarmos os frutos, e também ver os camaleões que ficavam lá no alto da árvore. Topei na hora!
Fomos, subimos no tamarindeiro e ficamos empanturradas de tanto comer tamarindo. Havia alguns camaleões bem perto de nós, eles ficavam olhando e virando os olhos a cada movimento que fazíamos, e alguns ficavam tão camuflados que se misturavam com as cores da árvore.
De repente, começou a chover aquela chuva de verão. Pensamos que à chuva fosse passar logo, mas não passou. Ficamos lá em cima da árvore, queríamos esperar o sol voltar para que secasse a nossa roupa, e continuássemos ali. Pois estava sendo maravilhoso tomar banho de chuva em cima daquela árvore.
Mas de repente começamos a ouvir os trovões e, com trovões surgem os raios. Então ficamos com medo e descemos rapidinho da árvore, e fomos correndo para a casa de dona Inácia.
Chegando lá, tomamos uma tremenda bronca da minha mãe e da dona Inácia.

Tomamos banho e trocamos de roupa, nesse tempo à chuva passou e o sol voltou a brilhar.
Eu e Riroco estávamos sentadas tomando um lanche. Ela olhou para mim e disse: - Vamos! Você não está ouvindo um barulho? - É o carro de boi que está passando lá na estrada.
Então saímos correndo e fomos ao encontro do carro de boi para pegarmos uma carona nele...
Só posso dizer que foi uma aventura maravilhosa.
Só voltamos para casa à noitinha, caminhando pelo campo e ouvindo os barulhinhos dos grilos e totalmente encantadas com o piscar dos vaga-lumes.
Foi tudo muito bom naquele dia de verão. Foi um presente e tanto.

Lita Duarte

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

O LUTADOR

Há muito tempo havia numa terra muito distante, um homem que amava muito o seu povo, amava muito a natureza e respeitava toda forma de vida.
Esse homem não se dobrava para as imposições exteriores. Ele era muito firme em seus preceitos.
Não era dono da verdade, mas era fiel na busca e manutenção do bem.
Amava a cultura de seu povo e lutava para preservá-la.
Ele era firme com as palavras, gestos e atitudes. Porém, quem o conhecia profundamente sabia que ele era dócil e amável. Mas para não se deixar corromper, precisava manter firmeza. Pois ele sabia que as riquezas materiais derrubavam as pessoas de sua dignidade.
Ele sabia que as pessoas costumavam se vender por trocados.
Ele era realmente um lutador.
Ele não tinha dificuldade para entender que para aqueles que optam em ser diferente, existem muitas barreiras. Mas ele não se importava. Ele falava! E quando falava, realmente dizia e abalava as estruturas.
Era muito amado, mas também odiado.
Viveu assim, sempre firme em suas convicções, deixou lições preciosas de amor, respeito e de verdadeiros valores humanos.
Ele sempre dizia que: Um homem não pode se conformar com as coisas erradas deste mundo, um homem tem que lutar para transformar a realidade.

Esse lutador pode ser apenas uma ficção ou pode ter existido de verdade.
Mas penso que todos aqueles que não tomam a forma deste mundo, que não se corrompem com os sistemas opressores que estão aí, no fundo são um pouco desse lutador.

Lita Duarte

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

AMIZADE VERDADEIRA




Araci, uma senhora viúva que morava na vila das Hortênsias, tinha um gato como sua única companhia. Quem passava na rua costumava ver dona Araci cuidando do jardim e sempre com aquele gato por perto, até parecia que o danado a ajudava nas tarefas com o jardim. Às vezes dona Araci ia até o portão para conversar um pouco com algumas vizinhas, o gato ficava o tempo todo do lado dela.  Algumas pessoas costumavam dizer assim: Esse gato parece gente. Vive enrabichado com sua dona, ele só falta falar!
Quando dona Araci se ausentava por algumas horas, o pobre gato ficava miando e andava pela rua a procura de sua dona. Quando ela chegava, ele se enroscava em suas pernas e pulava em seu colo.

Certo dia, dona Araci não amanheceu bem. Uma vizinha que costumava passar em sua casa logo de manhã para saber se ela estava bem, estranhou o fato da torneira do jardim estar aberta e algumas plantas espalhadas pelo chão. Dona Araci era muito organizada, quando cuidava do jardim deixava tudo muito bem limpo e arrumado.
A vizinha foi entrando na casa e viu dona Araci caída no chão. Ela mal respirava, então a vizinha chamou outras pessoas para que a ajudassem a cuidar de dona Araci. Ela foi levada para o hospital, mas não resistiu, acabou morrendo. O médico disse que ela já estava muito velha e com problemas  sérios no coração. 

O pobre gato ficou muito mal, ele miava muito quando dona Araci foi internada, mas depois de uns dias ele sumiu. Os vizinhos tiveram que entrar na casa de dona Araci para ver seus documentos e arrumar a casa para que se aparecesse algum parente, encontrasse tudo na mais perfeita ordem. Estranharam não encontrar o gato ali.

Certo dia, uma das vizinhas de dona Araci foi ao cemitério levar umas flores para enfeitar o túmulo dela. Ela ficou surpresa ao ver quem estava lá. E quase não acreditou no que viu. Como podia ser aquilo! O gato de dona Araci estava ali.  Ele estava magro, muito magro. O coveiro falou para a mulher: Esse gato está aí desde o dia que sua dona foi enterrada. Ele deve sentir muito a falta dela. Desse jeito ele vai acabar morrendo.
E foi o que aconteceu. Depois de alguns dias, outra vizinha amiga de dona Araci foi ao cemitério levar uma flores e encontrou o gato morto e ao lado da sepultura de sua dona.

Texto baseado em fatos reais.

Lita Duarte

A VELHA CASA

O som do silêncio à noite invadia os cômodos da casa. Sentada na minha cama, rodeada de livros, comecei a  pensar que, não faz muito tempo essa casa vivia cheia de gente. Hoje em dia, só os ruídos das madeiras que estão cheias de cupins, além do barulho dos passarinhos que fazem ninhos no teto. – Ainda bem que os pequenos voadores habitam este lugar, já os cupins...  preciso tomar coragem para dar um fim neles. Talvez eu chame uma dessas firmas com seus exterminadores de insetos. -  Mas tenho medo que ao ser aplicado um veneno para matar os cupins, também acabe por matar os passarinhos.- Ah, eu não desejo que meus companheiros desapareçam, eles cantam para mim .-  Mas como eu ia dizendo, essa casa era cheia de gente. Crianças corriam por todos os lados. Eu posso ouvir aquelas vozes infantis ressoando na minha memória. – Onde elas estão? - Seguiram o curso da vida. Foram seguir seus destinos. E o tempo voou... e eu me recuso a sair dessa casa, também ela está cheia de sons do passado, que só eu posso ouvir. De vez em quando, aparece alguém me fazendo proposta para que eu venda  minha casa. Eu sei que ela vale uns bons trocados, claro, querem comprar essa casa para derrubá-la e  construir um prédio bem alto com vários apartamentos. Então eu digo um valor exorbitante, os interessados olham para mim e dizem: Dona, essa casa não vale tanto assim! Então eu digo: Não vale para vocês que não viveram aqui! O valor dessa casa é muito grande e tem mais: nunca vão conseguir derrubá-la. Ela será doada para uma pessoa que vai ter que conservá-la para sempre. Os compradores interessados respondem: A senhora está maluca, ninguém vai querer conservar este imóvel. Daqui a alguns anos essa casa não existirá mais. Então fico muito brava e digo para essas pessoas irem embora. - No fundo, acho que ninguém vai querer conservar coisa alguma, a não ser que este imóvel seja tombado, mas tem tantos imóveis tombados por aí que estão caindo aos pedaços. Bem, enquanto eu viver ninguém derruba minha casa... a não ser os cupins.

Lita Duarte

sábado, 29 de outubro de 2016

PASSADO

A velha senhora era levada todos os dias, na parte da manhã para tomar sol na varanda da velha casa em que morava com seus dois gatos e suas auxiliares que eram, Adélia e Francisca.
Seus parentes não a visitavam mais. Ela tinha três filhos, mas apenas um a visitava com frequência.

A velha senhora se chamava Marina, e estava com oitenta e cinco anos. Vivia de lembranças e não podia caminhar, precisava ter sempre em sua companhia uma de suas auxiliares. Ela costumava dizer que seus dias agora estavam escuros e frios, mas que mesmo assim ela queria continuar viva. O assunto morte não fazia parte de suas conversas. Ela adorava falar do passado e de como tinha sido uma bela mulher. Suas auxiliares cansavam de ouvir suas histórias, mas eram pacientes e ouviam com atenção aquelas falas repetitivas.
Algumas vezes a velha senhora chorava muito, achava que era injusto ficar tão só e tão doente, dizia com frequência que se pudesse voltar ao passado teria feito muitas coisas diferentes. Achava que perdera tempo com coisas inúteis e que poderia ter cuidado melhor da saúde.

Muitas vezes a velha senhora repetia uma  fala que dizia assim: Tenho muito tempo. As horas passam arrastadas e quase não durmo a noite. Hoje, se eu tivesse saúde poderia fazer muitas coisas, mas não posso fazer quase nada, estou presa, não posso me movimentar... estou viva!  Isso me basta, tenho que me conformar.

Lita Duarte

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

BASTA UMA ÚNICA LEMBRANÇA

"Ficai, pois, a saber que não existe nada mais sublime e forte, mais saudável e benéfico para o futuro da nossa vida do que uma boa recordação, especialmente da infância (...)
Falam-nos muito de educação, mas uma bela e sagrada memória, guardada desde a infância, é talvez a melhor educação.
Se uma pessoa acumular muitas recordações dessas nos primeiros anos, será salva para o resto da vida. Mesmo que haja apenas uma única lembrança boa no nosso coração, pode um dia servir para que nos salvemos."


 Dostoiévski, in "Os Irmãos Karamázov"

sábado, 24 de setembro de 2016

VIBRAÇÕES E PENSAMENTOS

"Os frutos que crescem na árvore não são ingeridos por ela.
O poço nunca bebe sua própria água.
O sol não usa seu calor e luz.
Nada tem utilidade por si só, o valor está em servir.
Como seres humanos, ficamos alegres ao servir outros. Essa lei sustenta a verdade é dando que se recebe, portanto o sábio nos relembra: receba respeito, dê respeito, receba amor, dê amor e receba bênçãos, dê bênçãos.
Essa lei funciona mesmo em nível de vibrações e pensamentos. Pratique-a."

Brahma Kumaris

quarta-feira, 8 de junho de 2016

GUERREIROS

"São dois os mais fortes guerreiros: o tempo e a paciência."

Foto: Herbert

sexta-feira, 8 de abril de 2016

VIDA

A vida não é só o momento que estamos vivendo, mas o caminho que estamos construindo a cada momento.